
A caminhada liderada pelo deputado Nikolas Ferreira, que reúne parlamentares e admiradores do ex-presidente Jair Bolsonaro, deixa de ser apenas um gesto simbólico para assumir contornos de agenda política explícita. Marchar, em política, nunca foi só deslocar-se no espaço; é ocupar o tempo e disputar sentidos. Como advertiu Alexis de Tocqueville, os povos só se levantam quando percebem ameaçado aquilo que consideram essencial. O percurso rumo a Brasília traduz essa percepção em pressão organizada, com metas declaradas.
Segundo o próprio Nikolas, a manifestação se estrutura em cinco objetivos. O primeiro é a derrubada dos vetos presidenciais ao PL da Dosimetria, projeto que altera critérios de aplicação de pena no Código Penal e que, se aprovado integralmente, beneficiaria condenados pelos atos golpistas. Ao contestar os vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a marcha confronta a política criminal do governo e recoloca no centro do debate a proporcionalidade das penas — tema antigo do constitucionalismo, lembrado por Montesquieu ao alertar que todo poder tende ao abuso quando não encontra limites.
O segundo e o terceiro objetivos caminham juntos: a liberdade dos presos do 8 de janeiro e a liberdade de Jair Bolsonaro e de outros apontados como perseguidos políticos. Nikolas sustenta, inclusive, a defesa da prisão domiciliar como passo intermediário, evocando um argumento humanitário — “é melhor ele estar em casa, com visitas da família” — que dialoga com a tradição liberal de Cesare Beccaria, para quem a pena deve ser necessária, útil e humana, nunca vingativa. Aqui, a marcha busca não apenas revisão jurídica, mas reconhecimento político de excessos.
A quarta meta amplia o foco para a fiscalização institucional: impulsionar a CPI do Banco Master, classificada pelo deputado como um “escândalo absurdo”, inserindo o discurso anticorrupção no eixo da mobilização. A quinta fecha o arco com a validação da CPI do INSS, conectando o protesto às denúncias de irregularidades que atingem diretamente aposentados e pensionistas. Ao fazê-lo, a caminhada tenta mostrar que não se limita à defesa de indivíduos, mas pretende alcançar estruturas.
A história oferece paralelos. Henry David Thoreau já advertia que, quando a lei se afasta da justiça, a resistência civil torna-se um dever moral. No Brasil, as Diretas Já ensinaram que a pressão persistente pode reordenar prioridades mesmo sem vitórias imediatas. Ulysses Guimarães lembrava que a democracia se faz com conflito canalizado pelas instituições — e é exatamente aí que a marcha pretende incidir.
Ao final, Hannah Arendt ajuda a compreender o fenômeno: poder nasce quando pessoas agem em conjunto. A caminhada de Nikolas Ferreira testa essa máxima ao transformar passos em pauta e pauta em pressão. Se as metas serão alcançadas, o tempo dirá. Mas o fato político já está dado: há uma base mobilizada, com objetivos definidos, disposta a caminhar 240 quilômetros para exigir mudanças — e a cobrar que elas sejam debatidas à luz do dia.
Drykarretada!