
Em 30 de março de 1981, Ronald Reagan caiu ferido e a frase que atravessou aquele corredor de hospital não foi um slogan, nem uma manobra política, foi um lembrete de civilização: “Hoje, somos todos republicanos”, disse um médico democrata. Foi cirúrgico em sua frase não para mudar convicções, mas para suspender a guerra por um minuto e salvar o essencial: a vida humana. A política poderia continuar no dia seguinte, mas naquela hora, os EUA precisava provar que ainda era um país.
No Brasil de agora, a gente se acostumou a uma doença pior do que qualquer atentado criminoso: a moléstia grave de desumanizar adversários. E aí, quando Jair Bolsonaro adoece, com histórico de complicações e internações após a facada de 2018, além de episódios recentes de cirurgia e avaliações médicas, o que se ouve com frequência não é o silêncio respeitoso do “primeiro socorro moral”. É torcida. É deboche. É ódio. É gente chamando sofrimento de “merecido”. Nos últimos anos, em especial no final de dezembro de 2025 e começo de janeiro de 2026, veículos de comunicação noticiaram que Bolsonaro passou por diversas cirurgias, voltou ao cárcere e depois houve notícia de queda com avaliação médica, com discussões sobre necessidade de hospitalização conforme autorização judicial.
E aqui eu vou ser duro, porque o Brasil precisa ouvir:
um país não vira adulto quando “vence” o inimigo, torna-se adulto quando consegue manter a humanidade mesmo diante de quem detesta. Não é “passar pano”. Não é “anistiar no coração”. Não é concordar com ideias, discursos, alianças, decisões de governo, nem com qualquer ato sob investigação ou punição. É uma coisa mais básica, maior e mais rara: não perder a alma.
Então, o que “deveria ser feito” no Brasil, se quiséssemos ser uma nação e não arena:
- separar justiça de vingança. Se há pena, que se cumpra com lei, se há processo, que se faça com devido processo, mas tudo isso sem o sadismo social.
- garantir dignidade no cuidado médico, com transparência, sem transformar saúde em disputa de torcida.
- dá uma trégua humana mínima: líderes, oposição, situação, imprensa, influenciadores, todos podem dizer, cada um à sua maneira: “que seja tratado como ser humano, que haja cuidado e respeito.”
- aliançar um pacto de linguagem respeitosa, pois quem comemora dor alheia está treinando o país para a barbárie e um dia ela cobrará o preço de todos. A lição daquele hospital em 1981 não era sobre ser republicano. Era sobre ser humano. E o Brasil, hoje, precisa de uma frase equivalente, não para virar bolsonarista, nem antibolsonarista, mas para virar civilizado.
Porque, no fim, não é sobre Bolsonaro.
É sobre o Brasil que a gente quer ser quando o sangue aparece, quando a febre sobe, quando a vida balança e está frágil. Se a nossa compaixão depende do CPF ideológico, então não é compaixão: é propaganda. E merchandising não salva ninguém. Que os ensinamentos do bom Deus, cada um na sua crença, ainda encontre um solo fértil em nossos corações.
Por Hermann Schimmelpfeng Landim
Drykarretada!