
Os números revelados pela SSPDS são graves: 219 episódios de expulsão de moradores por organizações criminosas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, dos quais 143 ocorreram em Fortaleza, espalhados por 49 bairros. Não estamos falando apenas de mais uma modalidade criminosa. Quando uma família é obrigada a abandonar sua residência porque criminosos determinam quem pode permanecer em determinado território, há uma afronta direta à autoridade estatal e aos direitos de propriedade, moradia, liberdade de circulação e segurança.
A iniciativa do Ministério Público de construir um protocolo integrado de atendimento é necessária. Botão de pânico, auxílio financeiro, canais regionais de acolhimento e atendimento policial especializado podem proteger vítimas submetidas a situações extremas. Mas existe uma questão anterior que não pode desaparecer atrás das medidas assistenciais: como devolver às famílias, com segurança, o direito de permanecer ou retornar às próprias casas? O acolhimento protege a vítima depois da expulsão; a política de segurança precisa também enfrentar quem promove a expulsão e impedir que o controle territorial se consolide.
Há ainda uma dimensão que os números ajudam a revelar. Fortaleza concentrou 143 dos 219 episódios identificados, distribuídos por 49 bairros. Depois aparecem Maranguape, Maracanaú (16), Caucaia (15), Sobral (7), Pacatuba (2), Quixadá (2) e Cascavel (1). Isso demonstra que o problema não está restrito a uma única comunidade. Cada ocorrência precisa ser investigada individualmente, mas, em conjunto, os registros justificam uma resposta que una inteligência policial, investigação patrimonial, identificação de lideranças, responsabilização dos executores e presença permanente das forças públicas nas áreas afetadas.
O Estado precisa acolher quem perdeu a segurança para permanecer em casa, mas sua atuação não pode terminar aí. Uma política pública que apenas administra a saída das vítimas corre o risco de tratar a consequência sem neutralizar a causa. O objetivo maior precisa ser impedir novas expulsões, responsabilizar os criminosos e criar condições concretas para que o cidadão não tenha de pedir autorização a uma facção para viver dentro da própria casa.
Drykarretada!