
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta segunda-feira (27), trouxe à tona uma movimentação atípica de R$ 11,5 milhões envolvendo uma advogada de Goiânia, empresas do grupo J&F/JBS e destinatários sob investigação. Segundo o documento, Maisa de Maio Lima Marciano — que atuaria em escritório compartilhado e com faturamento mensal declarado de cerca de R$ 9 mil — recebeu os valores em dezembro de 2023 e realizou transferências relevantes no mesmo período, incluindo R$ 3,5 milhões à PHB Holding e R$ 6,9 milhões ao BK Bank.
A operação financeira chama atenção não apenas pelo volume incompatível com o porte do escritório, mas também pelo destino dos recursos. A PHB Holding pertence a Paulo Humberto Barbosa, que posteriormente adquiriu cotas de um empreendimento imobiliário — o Resort Tayayá, no Paraná — ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. A negociação foi confirmada pelo próprio magistrado, que afirmou que a transação ocorreu entre a empresa de sua família, Maridit Participações, e a holding, sem relação com o grupo J&F.
A sequência dos fatos amplia a relevância do caso. Em dezembro de 2023, período em que ocorreram os repasses à advogada, Toffoli determinou a suspensão de uma multa de R$ 10,3 bilhões imposta à J&F no acordo de leniência firmado com o Ministério Público Federal (MPF). A decisão teve como base questionamentos relacionados à Operação Spoofing, que apontou irregularidades na condução de processos ligados à Lava Jato. Ainda que não haja comprovação direta de vínculo entre os fluxos financeiros e a decisão judicial, a coincidência temporal tem gerado questionamentos e intensificado o debate público sobre transparência e conflito de interesses.
Outro ponto sensível envolve o destino de parte dos valores ao BK Bank, instituição citada na Operação Carbono Oculto, que investiga suspeitas de facilitação de movimentações financeiras ligadas a atividades ilícitas. Em nota, o banco negou qualquer irregularidade e afirmou operar com total rastreabilidade. Já a JBS e a J&F sustentaram que os pagamentos à advogada correspondem a serviços jurídicos devidamente prestados e documentados, ressaltando que não têm ingerência sobre repasses feitos por terceiros.
O caso também envolve a figura de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, cujos fundos foram utilizados em operações anteriores ligadas à aquisição de cotas do mesmo empreendimento imobiliário. A sucessão de transações e conexões empresariais coloca o episódio sob análise mais rigorosa de autoridades e especialistas, especialmente diante do impacto institucional que envolve um ministro da mais alta Corte do país.
Em meio às revelações, a reação de Paulo Humberto Barbosa à reportagem foi marcada por ataques ao veículo de imprensa, o que adiciona tensão ao episódio. Enquanto isso, o STF foi procurado para se manifestar oficialmente, e o espaço permanece aberto para esclarecimentos dos envolvidos.
O caso expõe uma engrenagem complexa de movimentações financeiras, relações empresariais e decisões judiciais que, mesmo sem conclusões definitivas, acendem o alerta sobre a necessidade de maior transparência e controle em operações de alto valor envolvendo agentes públicos e privados.
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