
Em períodos de desgaste, líderes recorrem a expedientes conhecidos para recompor base e retomar a iniciativa política. Um deles é deslocar o foco: tirar o debate das fragilidades domésticas e reorganizá-lo em torno de um antagonismo mais amplo, capaz de unir apoiadores. No Brasil atual, esse movimento aparece na forma como o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem tensionado o discurso em relação aos Estados Unidos e, por tabela, à figura de Donald Trump.
Não se trata apenas de política externa. A retórica que contrapõe soberania nacional a interesses estrangeiros — ou modelos de governança distintos — tem utilidade interna: organiza narrativas, simplifica conflitos e cria um ponto de convergência para a base. Em ano que antecede disputas eleitorais, esse tipo de enquadramento ganha tração porque transforma debates complexos (economia, gestão, segurança) em um eixo mais binário: “nós” versus “eles”.
A história oferece paralelos. Na Guerra Fria, antagonismos externos foram usados por ambos os blocos para sustentar coesão interna. Em momentos distintos, governos latino-americanos — de várias correntes — também recorreram a tensões com potências ou instituições internacionais para reorganizar apoio doméstico. Não é exclusividade ideológica; é técnica de poder.
No caso brasileiro, quando o discurso oficial enfatiza diferenças com Washington — e, em especial, com a agenda associada a Trump — há um duplo efeito. Para fora, sinaliza posicionamento e autonomia. Para dentro, funciona como catalisador político, ajudando a alinhar aliados e a reativar identidades que se mobilizam melhor diante de um contraste claro.
Mas há limites. Antagonismos externos simplificam o debate e rendem curto prazo, porém não substituem resultados concretos. Se o cotidiano não melhora — emprego, renda, serviços —, o recurso perde eficácia e pode até ampliar a polarização interna. Além disso, transformar política externa em extensão do conflito doméstico eleva o custo institucional e reduz espaço para pragmatismo.
No fim, a questão não é se governos utilizam ou não esse instrumento — usam. A questão é até onde ele resolve. Construir coesão pelo confronto pode ganhar manchetes; construir estabilidade exige entregas. E, cedo ou tarde, é a realidade que cobra a fatura.
Drykarretada!