
A direita brasileira vive um daqueles momentos em que o excesso de movimentos não produz avanço, mas barulho. A reportagem de Camila Turtelli, publicada em O Globo, ajuda a organizar esse quadro ao mostrar como divergências internas — longe de serem episódicas — começam a moldar o tabuleiro de 2026.
O embate ainda difuso entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas abriu uma fresta que Gilberto Kassab e Ratinho Júnior tentam transformar em avenida. O problema é que, no Brasil real, avenidas nacionais quase sempre esbarram em vielas regionais.
ALIANÇAS – Kassab é experiente demais para confundir vácuo com consenso. Ao estimular o projeto presidencial de Ratinho Jr., ele aposta menos em uma ruptura explícita da direita e mais na constatação de que o bolsonarismo, pela primeira vez desde 2018, não apresenta um eixo organizador claro. Flávio Bolsonaro carrega o sobrenome, mas ainda não demonstrou capacidade de ampliar alianças. Tarcísio, mais competitivo nas pesquisas e com trânsito institucional, segue ambíguo — flerta com o Planalto enquanto reafirma a prioridade na reeleição paulista. Esse compasso de espera cria, sim, uma brecha.
Mas a política raramente se resolve apenas no plano das intenções. O PSD de Kassab é um partido nacionalizado à força de acordos locais. Prefeitos, governadores e bancadas estaduais operam com lógica própria, muitas vezes incompatível com uma candidatura presidencial de oposição. No Rio, na Bahia, no Nordeste em geral, o partido está ancorado em alianças com o governo Lula. Romper esses arranjos teria custo alto — e Kassab não costuma apostar onde o risco supera o retorno.
CONSENSO – Enquanto isso, do lado do bolsonarismo, a falta de unidade vai além da disputa de nomes. Marcos Pereira, presidente do Republicanos, já disse com todas as letras que o apoio a Flávio Bolsonaro não é consenso na direita. Defende Tarcísio e critica Eduardo Bolsonaro, apontado como fator de ruído e radicalização excessiva. Rogério Marinho, escalado para organizar a campanha de Flávio, tenta profissionalizar o discurso, mas enfrenta a dificuldade clássica de conciliar identidade ideológica com viabilidade eleitoral.
Esse cenário fragmentado se agrava quando o debate político se mistura a uma sucessão de escândalos institucionais. O caso envolvendo o RioPrevidência e os investimentos de quase R$ 1 bilhão no Banco Master — hoje sob investigação da Polícia Federal e do Tribunal de Contas do Estado — é mais um episódio a reforçar a sensação de descontrole. Relatórios técnicos apontam coincidências difíceis de ignorar entre a contratação de dirigentes e o início de aplicações em papéis de baixa liquidez, colocando em risco o pagamento de aposentadorias e pensões de centenas de milhares de servidores.
Não se trata apenas de mais um caso de má gestão ou suspeita de corrupção. O episódio ajuda a explicar por que a opinião pública permanece intranquila e cética. Como já observaram analistas do próprio TCU e estudiosos do sistema previdenciário, fundos públicos são, historicamente, alvos preferenciais de aventuras financeiras travestidas de inovação. Quando isso ocorre em um ambiente político fragmentado, a crise deixa de ser apenas administrativa e se torna também simbólica.
“VAMOS VER” – A direita aposta que, no “vamos ver”, tudo se acomodará. Que divergências se dissolverão diante da necessidade de enfrentar Lula. Pode ser. A política brasileira é pródiga em reagrupamentos de última hora. Mas o momento atual sugere algo diferente: menos capacidade de coordenação, mais conflitos expostos e uma dificuldade crescente de oferecer ao eleitor uma narrativa clara de ordem, competência e futuro.
Entre a brecha aberta pela indefinição presidencial e o peso dos acordos regionais, a oposição parece presa a um paradoxo. Tem espaço para avançar, mas ainda não tem chão firme onde pisar. E, enquanto isso, o país segue assistindo — perplexo — a um vendaval político que mistura ambição, fragmentação e crises que insistem em se repetir.
Drykarretada!