
O país acordou, mais uma vez, diante de uma narrativa que parece saída de um laboratório de versões politicamente convenientes. Jair Bolsonaro confirmou ter usado um aparelho de solda na tornozeleira eletrônica — um fato em si já extraordinário —, mas reafirmou que não rompeu o lacre, nem buscou adulterar a fiscalização. Entre o uso de uma ferramenta e a suposta tentativa de fuga há um abismo que muitos, por conveniência, tentam transformar em ponte. E, para completar o surrealismo, essa mesma linha acusatória tenta sustentar que esse “plano” coexistiria com uma vigília religiosa convocada pelo senador Flávio Bolsonaro na porta do condomínio, em meio a policiais federais, câmeras e vigilância total. Fugir como? Passando pelo culto, pelas viaturas e pelas lentes do país inteiro?
O episódio expõe mais do que um gesto estranho — expõe um ambiente institucional predisposto a inflar cada movimento de Bolsonaro até o limite da criminalização. Se usar um aparelho de solda sem violar o lacre já rende especulações sobre fuga, clandestinidade e ruptura de medida judicial, então estamos diante de um sistema ansioso para confirmar a própria narrativa, mesmo quando os fatos não colaboram. É evidente que o uso da solda beira a imprudência. É estranho. É criticável. Mas transformar isso em um ensaio de escapada cinematográfica, sob escolta federal e com fiéis rezando do lado de fora, é exigir demais da racionalidade — e de qualquer leitor honesto.
O ponto central, porém, é o que vem depois: a reação do aparato institucional. Bolsonaro vive sob uma perseguição que já não precisa ser adjetivada — ela está registrada em decisões monocráticas sucessivas, no impedimento de ser julgado pelo plenário da Corte e em votos de ministros com histórico, vínculos e alinhamentos inequívocos com Lula, seu inimigo político. Nesse ambiente, qualquer deslize vira crime grave; qualquer gesto, intenção criminosa; qualquer mal-entendido, prova cabal de que a “morte virtual” deve avançar. O país assiste, quase apático, à erosão de um mínimo de isonomia que deveria proteger até seus adversários mais detestados.
E, diante desse quadro, sobra a pergunta incômoda: ao negar a prisão domiciliar mesmo diante de laudos de especialistas do Sírio-Libanês — médicos insuspeitos, de reputação nacional —, o sistema calcula que Bolsonaro pode suportar o peso físico, emocional e psicológico dessa pressão? Ou está simplesmente disposto a correr o risco de levá-lo ao limite extremo, depois de já tê-lo eliminado politicamente? Não queremos acreditar que a fronteira entre justiça e destruição pessoal esteja sendo cruzada. Mas quando versões improváveis viram verdades oficiais e atos inofensivos são tratados como crimes graves, o impensável deixa de ser paranoia. Torna-se possibilidade. E isso deveria assustar qualquer democracia que ainda se leva a sério.
Drykarretada!