
A recente megaoperação no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho escancarou um desconfortável contraste na aplicação da lei e na interpretação do que o Judiciário entende por “liberdade de expressão”. Enquanto figuras públicas e políticos identificados com a direita seguem cerceados em suas manifestações, traficantes e criminosos condenados mantêm presença digital ativa, concedem entrevistas e até promovem seus produtos literários em eventos de prestígio. O paradoxo é gritante e merece reflexão: por que a Justiça é tão rigorosa com uns e tão complacente com outros?
Nas redes sociais, criminosos conhecidos como “Japinha do CV” e Yago Ravel Rodrigues exibiam armamento pesado e ostentavam a rotina de poder paralelamente ao Estado, até serem mortos em confronto. Enquanto isso, o líder do tráfico Marcinho VP, preso e condenado, mantém um perfil ativo no Instagram, com publicações recentes divulgando seu livro — destaque, pasmem, na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). O mesmo homem que chefiou uma das facções mais violentas do país ainda pleiteia junto ao STF o direito de conceder entrevista à TV Record.
O contraste se acentua quando se observa o tratamento dispensado a Daniel Silveira e Jair Bolsonaro. Ambos foram censurados em redes sociais e proibidos de se expressar, mesmo quando suas falas não representavam ameaça concreta à segurança pública. Silveira permanece silenciado, impedido de conceder entrevistas, enquanto o líder de uma facção criminosa tem seu discurso amplificado. Já Bolsonaro foi punido até por participar virtualmente de um evento em que decisões do Supremo foram criticadas — ainda que não utilizasse suas próprias contas.
Essa disparidade de condutas do Judiciário levanta um questionamento inevitável: qual é o critério? A liberdade de expressão parece ter se tornado um privilégio seletivo, concedido conforme a conveniência política ou ideológica. Quando criminosos notórios são tratados com benevolência, e cidadãos — ainda que polêmicos — são punidos com censura, a mensagem transmitida à sociedade é de inversão de valores e enfraquecimento da confiança nas instituições.
A democracia não se sustenta com pesos e medidas diferentes. O mesmo Judiciário que concede voz a traficantes e assassinos precisa justificar por que silencia representantes eleitos e cidadãos críticos. A seletividade na aplicação da lei corrói o princípio da igualdade e alimenta a percepção de que, no Brasil, há liberdade de expressão apenas para quem o poder tolera ouvir. E quando o silêncio é imposto a uns e o microfone entregue a outros, o que está em jogo já não é apenas a liberdade — é a própria coerência da Justiça.
Drykarretada!