
A infiltração das facções criminosas na economia formal atingiu, em 2022, a cifra estarrecedora de R$ 453,5 bilhões em lucro, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para dimensionar o escândalo, trata-se de um montante superior ao Produto Interno Bruto de todo o estado de Santa Catarina no mesmo período. Não estamos diante de um detalhe periférico: o crime já não age apenas nos becos sombrios, mas se senta à mesa dos grandes negócios, distorcendo o mercado e sequestrando a prosperidade nacional.
O levantamento revela ainda que o crime organizado impediu a criação de 370 mil empregos diretos, privando famílias de renda e esperança, e causou uma perda de R$ 136 bilhões em arrecadação de impostos em apenas um ano. O próprio documento da CNI admite que o mercado ilegal “drena recursos da economia, distorce relações concorrenciais” e “contribui para a insegurança”. É a radiografia crua de um país onde, paradoxalmente, quem empreende dentro da lei é estrangulado por tributos, enquanto as facções prosperam blindadas pela impunidade.
A chamada Operação Spare, que mirou o uso de empresas de fachada para lavar dinheiro, expõe a sofisticação da engrenagem criminosa. Não se trata mais de uma economia paralela: é um câncer que metastizou para dentro do tecido produtivo, infiltrando-se em 16 setores formais. Quando o crime chega a esse nível de capilaridade, não estamos falando apenas de polícia e fuzil; estamos diante de um problema de Estado, que exige reformas estruturais, vigilância financeira rigorosa e, sobretudo, coragem política.
Mas o que mais choca é o silêncio cúmplice e a letargia dos poderes constituídos. A sociedade paga duas vezes: uma, pelo medo e pela insegurança; outra, pelo esvaziamento de oportunidades e pela sangria de recursos que poderiam financiar saúde, educação e infraestrutura. Ao ignorar o avanço desse inimigo invisível, o Brasil não apenas normaliza a ilegalidade — legitima a ideia de que o crime compensa. E quando o crime compensa, a legalidade perde sentido.
Drykarretada!